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VERSOS RIMADOS

Versos de amor, de crítica, de meditação, de sensualidade, criados ao sabor da rima e da métrica pelo autor do blog...

Versos de amor, de crítica, de meditação, de sensualidade, criados ao sabor da rima e da métrica pelo autor do blog...

O ARGUEIRO


Tu já és o pó que à terra há-de voltar
Embora na terra ainda sejas passajeiro
Uma travessa em frente do teu olhar
Não impede que no alheio vejas o argueiro.

Vejo-te perdido numa idade
Em que o movimento deixou de existir
Vives fora da modernidade
Tens no passado o teu único porvir.

Não lês como não liam os teus avós
Não escreves que para ti não há penas
Revês-te em coisas tão pequenas
Que a tua vida é uma corda cheia de nós.

Como gostava de poder estender-te a mão
Mas tu foges do que em mim não vês em ti
Condenas-te condenando-me sem razão
Nunca verás o que até hoje eu já vi...

A VIDA

No silêncio das palavras que não dizes
Ouço histórias que não ficam por contar
Momentos em que nós somos felizes
Talvez valha a pena um dia recordar.

Merendas sob o céu azulado
O Sol a brincar com os teus cabelos
A toalha de desenhos sobre o relvado
Tu e eu trocando desvelos.

O vento dança com as folhas das árvores
A valsa de nome eternidade
Melros solistas cheios de artes
Anunciam o mistério da natividade.

A Primavera corre atrás do Verão
As crianças umas atrás das outras
A chuva ainda vai molhando o chão
Os de sangue frio saem das suas tocas.

A vida como um rio novo e velho
Nascido numa longínqua serra
É a imagem reflectida num espelho
Do que somos tu e eu aqui na terra...

AS ANDORINHAS

andorinha.jpg

Uma luz ao fim do túnel
Pode ser a luz em nós
Se não ficarmos a sós
Em 'scuridão insolúvel.

A brisa fresca ligeira
Numa tarde de calor
Ameniza a soalheira
E enxuga um pouco o suor.

Se for alta uma parede
Que não se possa trepar
Que jamais alguém se enrede
Por deixar de a contornar.

São as malhas duma rede
Ora largas ora 'streitas
As coisas que são bem feitas
Não haverá rede que as vede.

Tristeza e alegria correm
Lado a lado como iguais
Se umas andorinhas morrem
Logo nascem outras mais!

DE CERTA RE



Sem querer ter a certeza
De que penso sem engano,
Vejo na língua a nobreza
Do brio mais lusitano.

Cada vez mais a certeza
Da minha objectividade
Me surge com a firmeza
Da luz que dá claridade.

De que é bom falar correcta
E claramente a certeza
É mais das almas pureza
Do que pensar de pateta

Faz parte do patriotismo
Ter bem presente a certeza
De que a língua portuguesa
Não é qualquer barbarismo!

PANO DE QUALIDADE

 

burro.jpg

Do esforço à realidade
Da convicção ao efeito
Vão duas imensidades
Maiores que qualquer sujeito.

Qualidades almejadas
São presas do julgamento
Cinzas jogadas ao vento
De pretenções mal pensadas.

O equilíbrio rejubila
Nas pessoas prevenidas
Contra à queda que aniquila
Das alturas desmedidas.

Além das nuvens sabidas
E de vento forte em rajadas
Também podem trovoadas
Ocorrer nas nossas vidas...

Na interactividade
Desta era em que vivemos
Falar com a vacuidade
Deixa marca de somenos

Usa no campo uma albarda
A burra que na cidade
No corpo traz uma farda
De pano de qualidade!            

A BURRICE


Tu que te andas a esconder
Esqueces que não sofro de cegueira
Nem percebes que sou o primeiro a ver
E que só tu cais na tua ratoeira...

Ninguém tem culpa do que é ao nascer
Quer nasça mais ou menos inteligente
Mas encontrar na burrice prazer
Não é proeza própria de gente...

Tanto pisas o fio da navalha
Que o andar já trazes calejado
A estupidez jamais te atrapalha
Porque dela vives rodeado...

Não pode haver maior obscuridade
Do que não ver o que aos olhos se depara
De quem te escondes em ti repara
E enoja-se da tua indignidade...

Do modo dissimulado como actuas
Perdes-te nas trevas desumanas
Nem mereces partilhar as ruas
Com o cidadão que julgas que enganas...

 

MENOS DO QUE UM VINTÉM



Hoje vivo sem companhia
Pela cidade vagueio só
Mas não me falta alegria
De mim que não tenham dó.

Falo sozinho é verdade
Meditando naquilo que sou
Sofro de muitos a fealdade
Mas sigo bem por onde vou.

Não se alia a carne ao ferro
Nem os objectos ao homem
Os que me condenam ao desterro
Mais a si próprios se consomem.

Nesta ladainha é bem evidente
Uma e outra face da moeda
Não passa de tolo contente
Quem ao diálogo se nega.

Se falo é porque há dano
Que não me abate porém
Valem menos do que um vintém
Os que vivem sem traço humano.

A vida não pode ser
caminho que nada deve
Nem se pode converter
Num simplesmente come e bebe.

Erguendo os meus olhos vi
Com uns bons olhos de ver
Uma luz eu descobri
Que me ensinou a viver.

Na Natureza se vislumbra
O sinal que nos conduz
Vive sempre na penumbra
Quem não descobre a sua luz!

UM SONHO



Vi um sonho a correr
Um sonho a crescer
Um sonho realidade
Não de bens a receber
Que possam enriquecer
senão a curiosidade.

Numa viagem diária
Que se torna já ordinária
Sem ser por necessidade
Percorro Lisboa a esmo
Enriqueço-me a mim mesmo
Redescobrindo os tesouros da cidade.

Sem roteiro programado
Ando por todo o lado
Aceito o que o acaso me traz
Emoções inexprimíveis
Momentos inesquecíveis
A tranquilidade da paz.

Muito tenho visto e revisto
Ainda assim não resisto
A passar mais uma vez
Chega ao ponto a fantasia
De confirmar a freguesia
Junto de um e outro Freguês.

Coisas que levarei um dia
Para aquela moradia
A que chamam eternidade
Por ora não penso na morte
Prefiro bendizer a sorte
de viver uma tal felicidade!

Súbito, único, lúdico, púlpito...



Versos anteriores vindo a trautear
Chegou à minha ideia de súbito:
Com esta palavra rima único
E outras não são fáceis de encontrar.

Isto vem dar razão ao que afirmo
Prova que não é só palavreado
Nem de manhã nem há bocado
Suspeitava do que agora rimo.

Eis que púlpito e lúdico vêm à colação
Os quais também rimam mais ou menos
Entro de novo em terrenos
De complicadíssima solução.

Esta é só ainda a  quarta
Das cinco quadras que me proponho
Da realidade ao sonho
Vai distância que se farta.

Não terá sido um grande tema
Entrar assim em poesias
Até parece um teorema
Das clássicas geometrias...

A PRESSA



Como aquelas nuvens se movem
Parecendo fazer uma corrida
Semelham as pessoas que correm
Com pressa de chegar ao fim da vida.

Tantas correrias convencidas
Duma pressa que só é aparente
Com a pressa perdem-se tantas vidas!
Com a pressa vive-se indiferente.

O mundo gira por fora
Duma atenção apressada
Corremos não vemos nada
Chegamos mas não é à hora.

São tantas as coisas belas
Que nos espreitam por aí
No céu olham-te as estrelas
E a terra espera por ti.

No mar as ondas que sobem
Convidam-te a segui-las
São esperanças que não morrem
E orientam as nossas vidas.