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VERSOS RIMADOS

Versos de amor, de crítica, de meditação, de sensualidade, criados ao sabor da rima e da métrica pelo autor do blog...

Versos de amor, de crítica, de meditação, de sensualidade, criados ao sabor da rima e da métrica pelo autor do blog...

NÃO É PRECISO CONHECER


Longas estradas eu palmilhei
Nestes dois meses que passaram
As gentes que por aí encontrei
Todas elas me saudaram.

Não é preciso conhecer
Os que por si vão passando
Erguem a mão saudando
Como quem diz: eu sou um ser!

Era fora da cidade
Entre carreiros e vinhedos
Onde mora a humanidade
Dos que afugentam os seus medos.

Infelizmente também vi horrendas
Devastações de soutos e pinhais
Para a construção de vivendas
À moda de bairros sociais.

É um crescer em comprimento
Em que uns poucos vão ocupar
Vastas terras em detrimento
De mais oxigénio no ar.

Entre as vias principais
Há caminhos de terra batida
Em que transbordam de vida
Arvoredos e animais... 

COM MÁSCARA


A serenidade mais fria
Porque subiu a outro plano
Dilacera a selvajaria
Com máscara de rosto humano.

A água límpida que corre
Duma nascente em terra pura
Refresca a alma que não morre
Como orvalho sobre a verdura.

Uma cúpula de pinheiro
Que nos enxerga lá do alto
Rasga a cortina do rasteiro
E põe a nu  o que for falso.

A silva agreste surpreende
Os que caminham pelo mato
Agarra-lhes a roupa e prende
O passo veloz insensato.

Os sons articulados são
Uma mistura de venenos
Há homens inda mais pequenos
Que o latido de qualquer cão...

PESSOAS E PAISAGEM



Cinza verde ou azulado
Conforme as feições do dia
As águas do rio Sado
São lágrimas de alegria.

Rodeado de pinheiros
E de algum mato bravio
São Filipe ali cimeiro
Bebe as lágrimas do rio.

A pousada um pouco ao centro
E o conjunto de guaritas
São coisas novas e antigas
Que o castelo tem lá dentro.

Há uns moinhos de vento
Que se encontram à direita
Presos ao encantamento
Do castelo que os espreita.

A serra em forma de crista
Que se eleva a ocidente
Tem na fortaleza à vista
Uma guarda permenente.

Os navios prestam honras
Em frente destes tesouros
Entre o espumar das ondas
E o roncar dos seus motores.

Embora o vento de norte
Desalinhe o meu cabelo
Sinto-me cheio de sorte
Ante este quadro tão belo.

A coinceneração
É uma queima selvagem
Nociva à população
Nociva a esta paisagem...

OS ANOS



Quanto mais velho se fica
Mais se aproxima o passado
E tudo na nossa vida
Se passou inda há bocado.

Vinte ou mais anos atrás
Quão longe era o recordar
De quando fui militar
Dos meus tempos de rapaz!

A morte que não se evita
Não me traz desassossego
Mas já não é muito cedo
Pra que não faça visita.

Muitos mais anos vivi
Que aqueles que vá viver
Mas só agora entendi
Que uns e outros vão-se a correr:

Parece que há muito tempo
Porém o tempo é só um
Para um qualquer momento
Não falta tempo nenhum!

DENTRO E FORA DO MAR



Pão no bico dos pardais
Melros com bichos no bico
Vão e vêm buscar mais
Num vaivém quase infinito.

Viro folhas com prazer
De mais um livro que leio
Inigualável recreio
Misto de acção e lazer.

Árvores deixando os lutos
Ganham nos meses que vão
Da Primavera ao Verão
Folhagem flores e frutos.

Hodiernos barcos sem vela
Deslizam na água azul
Ventos do Norte ou do Sul
Passeiam por cima dela.

De noite quais sentinelas
Junto à muralha taínhas
Traçam borbulhentas linhas
Quer em cruz quer paralelas ! 

NO CEMITÉRIO



Só pode ser bruxaria
Soavam vozes no ar
A uma hora tardia
Incomum em tal lugar.

Era junto ao cemitério
Onde jaziam as almas
Horas infindas e calmas
Até surgir o mistério.

O grupo cheio de medo
Ficou do lado de fora
Não desvendou o segredo
De que vou falar agora.

Uma noite com gemidos
Saciada atrás dum  jazigo
Quem eram? caros amigos!
Se o disser eu corro perigo...

Havia um vulto alto e escuro
De colar branco ao pescoço
Se era quem pensam não juro
Dos dois um vi que era moço...


NAS ESTRADAS



Um risco ao longo da estrada
Traçado com tantas curvas
Que lembram dedos de luvas
De mãos duma doce fada.

Lá ao fundo numa curva
Da estrada não do risco
Não vejo bem mas arrisco
Por terra há uma luva.

A luva não está caída
Mas sim calçada na mão
Dum corpo que jaz no chão
De alguém que perdeu a vida.

O sangue vermelho escuro
Já começa a ficar seco
Sinto-me dentro dum beco
Em que ninguém está seguro.

Procuro aquela saída
De que outros vão à procura
Talvez salvar uma vida
Nas estradas da loucura.

Não bebi estou sereno
Sempre dentro dos limites
Mais vale um sonho pequeno
Do que os loucos apetites!

UMA IDEIA



Talvez viver noutro astro
Deixar a terra maldita
Não levar dela nem rasto
Pra que ela não se repita.

Penso em uma odisseia
Para além do nevoeiro
Tecer uma nova teia
Num astro estranho e estrangeiro.

Romper o denso negrume
Que cerca a humana raça
Extirpar dela o costume
Que a faz cair em desgraça.

Destruir os labirintos
Em que velam os rancores
Construir outros recintos
Com o perfume das flores.

Penetrar numa floresta
Sentir o correr da seiva
Dormir à sombra uma sesta
Sobre uma folhosa leiva.

À meia noite acordei
Dum sonho que não é meu
Foi um sonho que sonhei
Duma ideia que nasceu!

AI QUE TRISTEZA!

Здание мэрии Москвы (бывшее здание СЭВ)
Edifício da Câmara de Moscovo(antigo edifício do Comecon)

 

Canso-me de ouvir dizer
Depende disto ou daquilo
Vivemos a depender
Quais campos de águas do Nilo.

Pendente da incerteza
Cai o povo na apatia
Morre a alma portuguesa
Que águas dos mares rompia.

Falta-nos o velho sal
Antigo encorajador
Que levava Portugal
Para além do Bojador.

Vítimas do servilismo
Seguimos uma má pista
Insensatos destruímos
O mercado comunista.

As néscias intervenções
Da RTP em Moscovo
Serviam as grãs nações
Mas jamais o nosso povo.

Pra um do Ex-Comecon
Daqui vai mais uma empresa
Para eles ai que bom!
Para nós ai que tristeza!

Do Leste vêm pra cá
As libertas criaturas
As empresas vão pra lá
pagamos duas facturas.

Entramos pouco indecisos
No que não nos diz respeito
Sofremos os prejuízos
Outros tiram o proveito!

BOM OMBRO



Uma fonte luminosa
E uma araucária com garbo
São um sonho cor de rosa
Que na minha alma guardo.

À sombrinha do arvoredo
Brincam crianças no parque
Expressões em formas de arte
Que desconhecem o medo.

As árvores o Sol banha
Em que melros têm ninhos
Donde voam passarinhos
Que o ar agitado apanha

Nos bancos em alvoroço
Jovens amorosos pares
Me lembram que também posso
No mister dar os meus ares.

Reparo cheio de assombro
E digo de olhos no céu
Esta vida é um bom ombro
Que o fado me concedeu!